Alface ameaçada: estudo da Embrapa alerta para futuro incerto do cultivo em campo aberto
Por Ronald Stresser – Sulpost
Nas feiras livres espalhadas pelo Brasil, a alface é quase unanimidade — folhas verdes, frescas e acessíveis. Mas um novo estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) acendeu um alerta: se o aquecimento global seguir o ritmo atual, a cena de produtores colhendo alface em campos abertos pode desaparecer no verão dentro de meio século.
O dilema do calor
“Os números projetados são preocupantes porque a adaptação da espécie às altas temperaturas é mínima”, diz o engenheiro-agrônomo Fábio Suinaga, pesquisador em Melhoramento Genético da Embrapa Hortaliças. A alface precisa, em estágio de semente, de temperaturas inferiores a 22°C para germinar adequadamente — condição que, segundo as projeções, será cada vez mais rara nos verões brasileiros.
O estudo cruzou projeções climáticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Em um cenário otimista (RCP 4.5) e no melhor recorte das simulações para 2071–2100, 97% do território pode apresentar risco climático alto ou muito alto para cultivo de alface em campo aberto durante o verão. No cenário pessimista (RCP 8.5), a área sob risco passa a ser, praticamente, todo o país em nível muito alto.
O que o calor faz à planta
Entre os efeitos mais visíveis estão a chamada tipburn (queima de borda) — manchas escuras nas bordas das folhas causadas por deficiência relativa de cálcio — e o florescimento precoce (pendoamento), que reduz o número de folhas, alonga o caule e provoca o aumento do látex, deixando a alface amarga e fora do padrão comercial.
- Temperaturas médias acima de 25°C favorecem o florescimento precoce.
- Condições de calor combinadas com alta umidade aceleram o crescimento das folhas e prejudicam o deslocamento de cálcio na planta.
- Produção e qualidade são afetadas simultaneamente, gerando perda econômica ao produtor.
Do campo à mesa: o que está em jogo
Segundo o Censo Agropecuário de 2017 (IBGE), o Brasil produzia 671,5 mil toneladas de alface por ano, com São Paulo na liderança. Mais recente, o Boletim Hortigranjeiro (Conab, agosto de 2025) mostra as quantidades comercializadas pelas Centrais de Abastecimento (Ceasas), com grande concentração nas regiões metropolitanas — o que ressalta como impactos climáticos no campo reverberam rapidamente no abastecimento urbano e no preço ao consumidor.
Para o pesquisador em Mudanças Climáticas Globais da Embrapa, Carlos Eduardo Pacheco, entender essas projeções é essencial “para antecipar impactos e evitar prejuízos”. Mais do que números em mapas, estão em disputa a renda de pequenos produtores, a oferta nas feiras e a alimentação de famílias que dependem de hortaliças frescas.
Caminhos de adaptação
A Embrapa já aposta em soluções: melhoramento genético para cultivares mais precoces ou com maior tolerância ao calor (como a BRS Mediterrânea), seleção de genótipos com sistema radicular vigoroso e a difusão de sistemas produtivos protegidos, que diminuem a exposição ao calor extremo. Ferramentas digitais e inteligência artificial também têm sido empregadas para automatizar a geração dos mapas de risco e acelerar tomadas de decisão.
Ainda assim, especialistas afirmam que a escala do desafio exige políticas públicas, investimentos em pesquisa aplicada e apoio direto a produtores familiares para que a transição não aprofunde desigualdades no campo.

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