24.8.26

Brincos de uma antiga deusa revelam uma história de fé, família e memória de 1.200 anos

Achados na Sibéria em 1985, os ornamentos podem representar Umay, entidade feminina dos antigos povos túrquicos ligada à fertilidade, à maternidade e à proteção das crianças. Nova pesquisa revela que as peças tiveram uma longa história antes de chegar ao túmulo

 
Achados na Sibéria em 1985, os ornamentos podem representar Umay, entidade feminina dos antigos povos túrquicos ligada à fertilidade, à maternidade e à proteção das crianças. Nova pesquisa revela que as peças tiveram uma longa história antes de chegar ao túmulo


Há objetos arqueológicos que impressionam pela beleza. Outros impressionam pelo que conseguem contar. Um par de brincos encontrado há mais de quatro décadas na Khakássia, no sul da Sibéria, pertence às duas categorias.

As peças, descobertas em 1985 no cemitério arqueológico de Koybaly, podem representar Umay, uma importante entidade feminina da tradição religiosa dos antigos povos túrquicos. Associada à fertilidade, à maternidade e à proteção das mulheres e das crianças, Umay ocupa um lugar especial na cosmologia das antigas sociedades da Eurásia.

Mas a história dos brincos é ainda mais surpreendente do que a possível identificação da personagem.

Uma mulher alada escondida em uma joia

As duas peças apresentam uma figura feminina vista de frente. Ela possui asas, elementos que lembram uma ave, um adorno sobre a cabeça e segura nas mãos um pequeno recipiente.

Foi justamente essa combinação de características que levou o arqueólogo russo Sergei Skobelev a propor, ainda em 1990, que a personagem pudesse ser uma representação de Umay.

A interpretação não é uma certeza absoluta. Não há uma inscrição dizendo o nome da entidade. Trata-se de uma identificação arqueológica baseada na iconografia e no contexto cultural em que os objetos foram encontrados.

A hipótese, porém, é particularmente interessante porque tradições antigas e posteriores associam Umay a uma figura feminina de natureza celeste e a motivos de pássaros ou asas.

Nova descoberta: não eram originalmente brincos

É aqui que a pesquisa mais recente muda completamente a maneira de olhar para as peças. Um estudo tecnológico, publicado agora, em 2026, por pesquisadores do Instituto de Arqueologia e Etnografia da Academia Russa de Ciências, em colaboração com a Universidade Estatal de Novosibirsk, mostrou que os objetos não foram fabricados originalmente como brincos.

As peças começaram sua existência como objetos ornamentais mais complexos, produzidos principalmente em prata e trabalhados com técnicas sofisticadas de ourivesaria.

O primeiro artesão utilizou filigrana, fios metálicos torcidos, soldagem e douramento. O resultado revela um domínio técnico impressionante. Em algum momento, porém, outro artesão modificou os objetos e acrescentou os elementos necessários para transformá-los em brincos.

Ou seja: aquilo que hoje vemos como um par de brincos nasceu com outra finalidade.

Uma joia que foi consertada

A história não termina aí. Uma das peças sofreu uma fratura, aparentemente na região de uma das asas. Em vez de abandonar o objeto, alguém decidiu repará-lo.

O conserto foi feito de maneira mais simples, utilizando um fio metálico para recompor a parte danificada. Para os arqueólogos, esse pequeno detalhe diz muito. O objeto não era simplesmente descartável. Alguém se importou o suficiente com ele para consertá-lo e continuar usando-o.

É possível imaginar, embora não seja possível provar, que os brincos tenham passado de uma pessoa para outra ou permanecido durante muito tempo dentro de uma mesma família. Talvez fossem valiosos não apenas pelo metal ou pelo trabalho artístico, mas pelo significado que carregavam.

Uma mulher foi enterrada com eles

Os brincos foram encontrados associados a um sepultamento interpretado pelos pesquisadores como pertencente a uma mulher adulta. O contexto funerário também incluía elementos relacionados a um cavalo, entre eles partes de pele, ossos e componentes de arreios.

Os brincos estavam escondidos em uma estrutura junto à parede da sepultura. Não sabemos quem era aquela mulher. Não sabemos seu nome, sua idade exata ou qual era sua posição dentro daquela sociedade. Também não podemos afirmar que ela fosse sacerdotisa de Umay ou que os brincos fossem necessariamente um amuleto religioso.

Mas sabemos que ela foi enterrada com um objeto extraordinariamente elaborado, que já havia passado por diferentes mãos e provavelmente carregava uma história anterior à sua própria morte.

Quem era Umay?

Umay é uma das figuras femininas mais importantes associadas à religiosidade dos antigos povos turcos.

Seu nome aparece em fontes relacionadas ao antigo mundo túrquico, incluindo as inscrições de Orkhon. Ao longo das tradições estudadas pelos pesquisadores, ela aparece ligada especialmente à fertilidade, à maternidade, às mulheres, à proteção das crianças e da família.

Por isso, quando os arqueólogos encontram uma figura feminina alada em um objeto turco antigo, a possibilidade de uma conexão com Umay ganha uma importância relevante.

É importante, entretanto, não confundir os antigos povos túrquicos com a moderna Turquia. Os brincos foram encontrados na atual Rússia, em uma região que fazia parte do amplo mundo cultural e político das sociedades túrquicas da Ásia Central e da Sibéria.

Mais do que uma joia

Talvez seja justamente isso que torne os brincos de Koybaly tão fascinantes. Eles não são apenas duas pequenas peças de metal preservadas por mais de mil anos. São testemunhos de uma rede humana que se estende através do séculos.

Um artesão os criou. Outro os transformou. Alguém os usou. Uma pessoa decidiu repará-los quando foram danificados. Eles continuaram circulando, possivelmente durante anos ou até gerações, antes de acompanhar uma mulher em sua jornada final. E, então, o par de brincos permaneceu silencioso, dentro da terra, até ser encontrado, em 1985.

Agora, mais de 40 anos depois, novas análises tecnológicas estão permitindo reconstruir uma parte dessa trajetória. Talvez a arqueologia seja justamente isso: encontrar pequenos vestígios do passado e devolver a eles uma história humana.

No caso dos brincos de Koybaly, essa história reúne uma antiga tradição religiosa, o trabalho extraordinário de artesãos, a vida de uma mulher e a possibilidade de que um objeto tenha sido preservado por seu significado muito depois de deixar de ser apenas uma joia.

Nota: a identificação da figura como Umay é uma interpretação arqueológica proposta por pesquisadores e não uma identificação comprovada por inscrição. As peças foram descobertas em 1985; o que ganhou novo destaque em 2026 foi a análise tecnológica de sua fabricação, transformação e reparos.

Fontes: Instituto de Arqueologia e Etnografia da Academia Russa de Ciências; Sergei G. Skobelev; estudos acadêmicos sobre iconografia e religião dos a povos turcos da antiguidade.

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