Após 39 meses à frente do Meio Ambiente, ministra destaca redução do desmatamento, reconstrução do Estado ambiental e aposta na continuidade da agenda climática
O tom era de encerramento, mas também de travessia. Em Brasília, na tarde desta quarta-feira (1º), Marina Silva leu um discurso longo, firme, com pausas que carregavam mais do que números. Eram 39 meses condensados em pouco mais de 50 minutos — e uma sensação clara de ciclo concluído, ainda que incompleto.
Ao deixar, pela terceira vez, o comando do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Marina preferiu falar de reconstrução. E não como metáfora.
Quando assumiu, em janeiro de 2023, encontrou — segundo suas próprias palavras — uma estrutura fragilizada, quase desfigurada em sua capacidade de agir. “Política, ética, técnica, administrativa e operacionalmente”, listou. A resposta veio em forma de recomposição: mais de 1.557 servidores incorporados ao sistema ambiental, entre Ibama, ICMBio e Jardim Botânico.
Não foi só gente. Foi dinheiro, engrenagem e direção.
O orçamento da pasta mais que dobrou em três anos, saltando de R$ 865 milhões para R$ 1,9 bilhão. Um dado que, isolado, pode parecer técnico — mas que, na prática, se traduziu em presença mais constante do Estado onde antes havia ausência.
E isso aparece nos números.
Entre 2022 e 2025, o desmatamento caiu pela metade na Amazônia. No Cerrado, a redução foi de 32,3%. Em termos climáticos, isso significou evitar a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente — um volume difícil de visualizar, mas decisivo no jogo global contra o aquecimento.
Mais recente, o ciclo de alertas entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026 aponta nova queda: 33% na Amazônia, 7% no Cerrado. Marina foi direta: mantido o ritmo, o Brasil pode alcançar a menor taxa de desmatamento da série histórica.
Mas não foi só contenção. Houve recuperação.
O país passou a ter 3,4 milhões de hectares em processo de regeneração da vegetação nativa. Ao mesmo tempo, a fiscalização ganhou musculatura: operações do Ibama cresceram 80% na Amazônia; as do ICMBio, 24%. As áreas embargadas também avançaram — e a mineração ilegal, um dos focos mais sensíveis, caiu pela metade.
No pano de fundo, uma tentativa de reorganizar o que Marina chamou de “Estado ambiental brasileiro”.
A despedida também foi passagem de bastão. O secretário-executivo João Paulo Capobianco assume o ministério com a missão de manter o rumo. A própria Marina sinalizou confiança na continuidade — uma palavra que, ali, soou quase como compromisso político.
Segundo a Agência Brasil o discurso não ficou preso ao balanço.
Ao falar de futuro, a ministra retomou um tema ainda em construção: a criação da Autoridade Climática Nacional. A ideia, segundo ela, segue viva dentro do governo e envolve mais do que um órgão — exige um sistema capaz de lidar com um país onde quase 2 mil municípios já enfrentam risco permanente de eventos extremos.
A proposta inclui um conselho técnico e científico interministerial e um novo marco regulatório para situações de emergência climática. Ainda não saiu do papel, mas não saiu da prioridade.
No fim, Marina voltou ao que sempre parece guiá-la: a persistência.
Disse que não se vê como otimista nem pessimista. Apenas persistente. E recorreu a uma imagem que costuma repetir — a de que ninguém voa sozinho.
“A realidade muda quando a gente muda a realidade”, afirmou.
A frase pode soar circular à primeira vista. Mas, diante dos dados apresentados, talvez seja justamente essa a ideia.
Porque, no balanço que fica, há menos floresta derrubada — e mais pressão para que isso não seja apenas uma fase.
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