Boletim Agroclimatológico do Inmet prevê trimestre marcado por calor acima da média e déficit de chuvas nas regiões centrais do país; no Sul, cenário favorece as lavouras, mas exige atenção redobrada ao avanço de doenças fúngicas
| Lavoura de milho substitui a soja no inverno e simboliza a pujança do agronegócio em uma das terras mais férteis do país, mas seca ameaça 2ª lavoura de 2026 - Reprodução/Wikimidia |
O campo brasileiro entra no segundo semestre olhando para o céu com sentimentos opostos. Enquanto produtores das regiões centrais do país acompanham com preocupação a previsão de um trimestre mais seco e quente, agricultores do Sul convivem com um cenário inverso: chuva abundante, boa umidade do solo e um novo desafio, o controle de doenças nas lavouras.
O alerta faz parte do mais recente Boletim Agroclimatológico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A previsão para o trimestre de julho, agosto e setembro aponta um aprofundamento da seca em boa parte do Centro-Oeste, interior do Norte e do Nordeste, justamente em um período decisivo para parte da segunda safra de milho, para as pastagens e para o planejamento da próxima temporada agrícola.
Milho pode sentir os efeitos da estiagem
Nas áreas onde a colheita do milho de segunda safra ainda está em andamento, a redução das chuvas pode até favorecer a operação das máquinas e diminuir a umidade dos grãos, preservando sua qualidade.
Mas o cenário muda nas lavouras mais tardias. Segundo o Inmet, a combinação entre temperaturas acima da média e falta de chuva deve aumentar o déficit hídrico ao longo de setembro, especialmente em áreas do Tocantins, Amapá e sudeste do Pará. Nessas regiões, a deficiência de água poderá comprometer o enchimento dos grãos e reduzir a produtividade.
Além da agricultura, as pastagens também entram na zona de preocupação. A recuperação mais lenta da cobertura vegetal pode afetar a pecuária, elevando custos de produção e pressionando toda a cadeia de proteína animal nos próximos meses.
Calor aumenta risco de queimadas
Outro ponto que chama atenção no boletim é a previsão de temperaturas acima da média em praticamente todo o país.
Na Região Norte, estados como Amazonas, Acre, Pará, Roraima, Tocantins e norte de Rondônia poderão registrar temperaturas até 2°C acima da média climatológica. Esse cenário favorece a redução do nível dos rios, amplia o risco de incêndios florestais e aumenta a vulnerabilidade dos ecossistemas amazônicos.
No Centro-Oeste, o inverno também deverá ser mais quente e seco. Se, por um lado, o clima favorece a maturação e a colheita do algodão, por outro amplia o risco de perdas na segunda safra do milho e pode refletir no custo da alimentação animal durante o segundo semestre.
Paraná vive cenário mais favorável
Para os produtores paranaenses, o boletim traz uma perspectiva relativamente positiva. As chuvas registradas nas últimas semanas mantiveram boa disponibilidade de água no solo, favorecendo o desenvolvimento das lavouras de milho e das culturas de inverno.
A previsão indica continuidade de precipitações acima da média em boa parte da Região Sul durante este trimestre. Para muitas propriedades rurais, isso representa segurança hídrica e boas condições para o desenvolvimento das culturas.
Mas nem tudo são boas notícias. A elevada umidade, combinada com menor incidência de radiação solar, cria um ambiente ideal para a proliferação de doenças causadas por fungos. O Inmet recomenda monitoramento constante das lavouras, especialmente nas áreas de trigo e demais culturas de inverno, além de atenção às janelas para aplicação de defensivos agrícolas.
Nordeste também entra em alerta
No interior do Nordeste, a preocupação é semelhante à observada no Centro-Oeste. O avanço da estiagem poderá comprometer lavouras de milho e feijão cultivadas em sistema de sequeiro, principalmente durante as fases de floração e enchimento dos grãos.
As lavouras de algodão tendem a se beneficiar das condições mais secas, enquanto as pastagens deverão sofrer queda significativa de produtividade ao longo do trimestre.
El Niño reforça contraste entre Sul e Norte
As previsões mais recentes confirmam que o fenômeno El Niño permanece estabelecido no Oceano Pacífico e deve continuar influenciando o clima brasileiro até o início de 2027.
Na prática, isso reforça um padrão conhecido pelos meteorologistas: mais chuva sobre a Região Sul e maior tendência de seca no centro-norte do Brasil.
O Painel Nacional do El Niño, elaborado por órgãos como Inmet, INPE, ANA e Cemaden, recomenda monitoramento permanente das condições climáticas por produtores rurais e gestores públicos, diante da possibilidade de ondas de calor, queimadas e impactos sobre a produção agrícola.
Para o agronegócio brasileiro, o trimestre que começa agora será marcado menos pela falta de tecnologia e mais pela capacidade de adaptação. Em um país de dimensões continentais, o clima continuará distribuindo oportunidades e riscos de forma desigual — exigindo decisões rápidas dentro e fora das porteiras.
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