terça-feira, 14 de julho de 2026

Curitiba respira rock no Dia Mundial do Rock

Entre guitarras, amizades de infância e novas histórias, a Capital Nacional do Rock prova que sua maior riqueza continua sendo a sua tribo

 Por Ronald S. Stresser Jr - jornalista e roqueiro curitibano


Entre guitarras, amizades de infância e novas histórias, a Capital Nacional do Rock prova que sua maior riqueza continua sendo a sua tribo
No momento Empada, celebrando a vida. O bar lotou no sábado (11) - Foto: Sandro

Tem cidades que têm um sotaque. Curitiba tem um riff. Todo 13 de julho acontece a mesma coisa. Basta cair a noite para a cidade ganhar outro ritmo. As guitarras falam mais alto, o baixe a batera marca o compasso do coração enquanto o rock fala direto na tua cabeça. 

Em Curitiba as camisetas pretas, desde o início anos 70 nunca mais deixaram às ruas, os velhos LPs saem das estantes e uma legião de gente que talvez nem se conheça sorri e curte a noite junto como se fosse da mesma família. É por isso que Curitiba carrega com orgulho o título de Capital Nacional do Rock.

Mais do que uma cena musical, existe aqui uma verdadeira tribo. Temos bandas incríveis que nasceram nos anos 70, A Chave, que se não me engano nasceu nos anos 60, em seguida Patrulha do Espaço, a icônica com a banda Blindagem e lá de Ponta Grossa, o Arrigo Barnabé, que tirava um som incrível com a Tetê Espíndola e o Carlos Careqa, mas o pessoal mesmo sendo de Ponta Grossa fez sucesso nacional, a Blindagem tocou no Chacrinha até ... tribo, a gente sabe, não conhece fronteiras. 

Um roqueiro de Curitiba conversa com outro de Londres, Buenos Aires, São Paulo ou Berlim como se fossem velhos conhecidos. Basta citar Beatles, Black Sabbath, Pink Floyd, Rolling Stones, Led Zeppelin ou contar para o pessoal a história das nossas bandas daqui, histórias maravilhosa que sei da Blindagem em Camboriú, que a conversa já começa com um sorriso. A tribo do rock é internacional.

O rock mora nas amizades

Este ano resolvi comemorar de um jeito diferente. Segunda-feira costuma ser o dia em que o corpo cobra a conta do rock do final da semana, afinal já não sou mais nenhum garoto. Aos 56 anos, preferi celebrar aquilo que o rock tem de mais valioso: as amizades que sobrevivem ao tempo, digitando essa postagem.

Enquanto escrevo, assisto aos novos clipes dos Rolling Stones, que com mais de 80 anos de idade estão lançando disco novo, com músicas inéditas e saindo numa turnê mundial. Nesse exato momento aliás, enquanto trabalho, estou ouvindo um clipe do Alpha Blondy no YouTube da TV  é do Reggae, mas somos tribos irmãs. É difícil um roqueiro que não curte reggae de vez em quando e vice-versa. Jah bless!

Passei boa parte de duas noites, que antecedem o 13 de julho, ao lado do meu amigo mais antigo, Sandro Lemos. Guitarrista daqueles que fazem a guitarra cantar de verdade. Daqueles guitarristas que sabem como fazer a guitarra falar.

Nossa amizade começou quando tínhamos uns oito anos de idade. Foi na casa do meu primo distante, Paulo Henrique, na Rua Ângelo Sampaio, aqui nas Mercês bairro onde moro até hoje. O Paulinho morava num prédio, na esquina com a Martim Afonso e o Sandro em outro, na esquina com a Padre Anchieta. Praticamente vizinhos. Ali também vivia o inesquecível Digão, que infelizmente já partiu.

Os dois tinham coleções absurdas de LPs de rock, jazz e rock progressivo. Foi naquele universo de discos de vinil, capas gigantes, agulhas deslizando sobre os sulcos e guitarras que pareciam falar, que descobri o bom e velho rock and roll. Inclusive meu primeiro disco de rock, que eu mesmo comprei foi dos Rolling Stones, o segundo do Kiss, numa lojinha de discos que tinha ali na galeria do TUC.

Algumas amizades são como o rock n'roll, atravessam décadas e não morrem nunca, devido a imensa quantidade de ideias, de sons que propagam, e histórias que todos vivemos juntos.

O último grande show de rock que fui aqui em Curitiba, foi o do Roger Watters, com o meu amigo Fábio e a família dele. Qualquer pessoa que esteve lá na baixada nesse show, sabe as pessoas se olhavam e no olhar parece que se comunicavam: poxa, somos da mesma família.

Sandro Dantas Lemos e Ronald Sanson Stresser Júnior, comemorando o Dia do Rock
O jornalista Stresser e o especialista em guitarras Sandro, nas comemorações do Dia do Rock, em Curitiba a capital do rock (e óbvio que também do heavy metal) - Selfie / RSSJr

Uma paixão que atravessa gerações

Existe outra coisa que me enche de orgulho neste Dia Mundial do Rock. Meu filho, que também se chama Ronald Stresser, herdou muito mais do que o sobrenome. Herdou a paixão pela guitarra. Pelo rock, pelo progressivo e muito metal. E o cara toca muito.

Nem preciso dizer qual é o estilo musical preferido dele. Rock. Claro. Imagina que filho ou filha de roqueiro e roqueira não vai curtir rock?

Ver essa paixão atravessando gerações é emocionante. O rock fez parte da minha infância, marcou minha juventude, continua presente na minha vida adulta e agora também ecoa nas cordas da guitarra do meu filho. 

Existem heranças que não aparecem em cartório. Elas vivem na memória, na música e no coração. Música é vida.

Crossroads, Empada com Birita e galera do bem

As comemorações começaram antes do dia 13. Na sexta-feira estive no Crossroads. No sábado, no Empada com Birita. Dois lugares que fazem parte da história do rock curitibano. O primeiro no Batel, o segundo aqui no alto São Francisco.

Mas olha que o melhor de tudo nem sempre está em cima do palco. Fomos ao Empada especialmente para prestigiar a banda do Jordi, outra figura querida da cena roqueira de Curitiba.

Foi lá que conheci o Alexandre, batera da banda, e sua companheira Anna, professora. Um casal simplesmente fantástico. Daqueles que bastam alguns minutos de conversa para parecer que você conhece há décadas. É uma das magias do rock. Rock n'roll não é só um estilo musical, é um estilo de vida.

É isso que o rock faz. Une pessoas. Cria amizades. Derruba muros. Inspira pessoas que mudam o mundo. Enquanto muita gente insiste em transformar diferenças em motivo para brigar, o rock continua aproximando as pessoas. Vale o ditado dos tempos do Woodstock: faça o amor, não a guerra.

Antigamente diziam que era o futebol que unia todo mundo em um time, em uma torcida, mas que adorava quebrar o pau com a torcida do time adversário. Tipo um vizinho metendo a porrada no outro por causa de futebol... coisa de gente cabeça oca.

Atualmente, e para infelicidade de muitos, a política parece fazer exatamente a mesma coisa. Falta pouco para virar tiro, porrada e bomba. Igual essas brigas de torcida icônicas que a gente vê na TV de vez em quando. As massas, mais uma vez foram enganadas por marqueteiros políticos hábeis e inescrupulosos.

Nós, da tribo do rock, não gostamos desse tipo de tiro, dessa porrada e dessa bomba. Às vezes rola uma briga, gente bonita, cerveja gelada, músicas que disparam neurotransmissores poderosos. Mas geralmente é por causa de ciúmes bobo, ou efeito de abuso.

O nosso tiro é o da baqueta batendo na caixa da bateria. A nossa porrada vem dos riffs dedilhados nas cordas das guitarras. E a única bomba que a gente faz questão, é de ouvir é a explosão dos amplificadores e caixas de som no máximo volume, durante um show ou apresentação de uma ou mais bandas. Porque se uma banda faz um show, duas ou três já fazem um festival

Nosso negócio sempre foi outro. Paz. Amor. Amizade. Respeito. Liberdade. Boa música. Simplesmente, porque arrumar encrenca estraga a diversão. A gente tem o mais profundo a respeito pela vida. Inclusive a tribo do Rock tem um amor tão grande pela vida, que impera o ditado: cada um cuida da sua.

O rock sempre incomodou quem tem medo da verdade

Desde que nasceu, o rock aprendeu a fazer perguntas incômodas. Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, Black Sabbath e tantos outros denunciaram guerras, autoritarismos, injustiças e governantes, políticos, que preferem mandar jovens morrerem enquanto permanecem confortavelmente sentados em seus gabinetes.

No Brasil, ninguém fez isso de maneira tão intensa quanto Cazuza. Continua sendo, para muita gente, o maior nome do rock nacional. Um artista que teve uma partida precoce e dolorosa, mas deixou um legado impossível de apagar.

Suas músicas continuam atuais porque falavam daquilo que nunca deixou de existir: poder, corrupção, hipocrisia e liberdade. O rock nunca foi feito para agradar poderosos e nem para conquistar a confiança e o amor dos reacionários. Foi feito para despertar consciências. Abrir portas e janelas. Construir mais pontes e menos muros. Talvez por isso tenha tanto jornalista fã de rock n'roll e heavy metal.

Curitiba continua respirando rock

Neste Dia Mundial do Rock, Curitiba voltou a mostrar sua força. A programação reuniu casas tradicionais como Sheridan's Irish Pub, Belvedere Bar, Tork n' Roll e Hard Rock Cafe Curitiba, todos celebrando uma das datas mais importantes do calendário da cultura rock. Como é segunda-feira, os empresários do ramo decidiram começar com matinê no final da tarde. Pela manhã saberei de todas as resenhas.

Já no final de semana, milhares de pessoas participaram do World Rock Day, no Complexo Arena White Hall. A Ópera de Arame também entrou na festa com apresentações especiais no Vale da Música, enquanto bares históricos como o Sebas Rock Bar mantiveram viva a chama do rock curitibano.

Uma tribo sem fronteiras

Dizem que hoje o sertanejo é o estilo mais popular do Paraná. Pode até ser. Mas basta andar por Curitiba no dia 13 de julho para perceber que a tribo do rock continua gigantesca. Também Reza a lenda que pelo menos metade dos fãs de música sertaneja também curtem heavy metal e rock n'roll.

E talvez ela seja ainda maior do que imaginam. Porque boa parte de quem ouve sertanejo também conhece de cor uma música dos Beatles, do Pink Floyd, do AC/DC, Frank Zapa, Sabbath ou, aqui em Curitiba também a gente não esquece do Blindagem. Aliás, lembrei agora também da Casa das Máquinas.

No fim das contas, a boa música sempre encontra espaço. Enquanto existirem amigos reunidos, baixos e guitarras ligadas com o chimbal dando ritmo, existem discos girando, as bandas fazendo seu som e gente disposta a celebrar a liberdade, o rock continuará vivo.

E, olhando para tudo o que vivi neste fim de semana, e no final de semana passado também, acabou se prolongando nesta segunda-feira, quando reencontrando velhos amigos, fazendo novos.

Hoje, trabalhando aqui na sala e ouvido meu filho tocar guitarra e violão, ademais conseguindo conciliar seus estudos de música com leitura e matemática. Percebo que essa tribo continua espalhada pelo mundo inteiro.

Os rockeiros procriam também em estilo, não apenas biologicamente, então só consigo terminar a postagem de um jeito. Com um voto, que dessa vez não é para a política: vida longa ao rock n'roll. Vida longa à nossa tribo. E viva Curitiba, a eterna Capital Nacional do Rock.

Homenagem da Mãe Lucília ao Dia do Rock

Encerrando minha crônica do Dia do Rock 2026, na Capital do Rock, público aqui no  Sulpost publica uma seleção especial de fotografias postada no Instagram, pela amiga Lucila Guimarães, em homenagem ao Dia Mundial do Rock.

As imagens registram músicos, bandas amigos, amigas e personagens da cena roqueira curitibana, brasileira e internacional.

A Lucília, que além de fotógrafa profissional também é Mãe de Santo do Terreiro Pai Maneco, eternizou no trabalho dela um pouco da alma de ídolos dessa tribo, que continua fazendo da música um instrumento de liberdade, amizade e resistência. Aliás Lucília, você é 100% Rock n'Roll!

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