Relatório da ANA aponta 213 barragens em situação crítica e revela déficit de fiscalização, reacendendo o debate sobre a segurança dessas estruturas no país
| Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil |
Os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana (2015), e da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (2019), transformaram para sempre a história da mineração brasileira e da segurança de barragens. As duas tragédias somaram 291 mortes, destruíram comunidades inteiras, contaminaram importantes bacias hidrográficas e deixaram impactos ambientais, sociais e econômicos que ainda persistem.
Mais de uma década após Mariana e sete anos depois de Brumadinho, um novo levantamento mostra que o país continua convivendo com centenas de estruturas consideradas preocupantes.
O Relatório de Segurança de Barragens 2026 (RSB 2026), divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), identifica 213 barragens em situação prioritária de segurança. São estruturas que apresentam problemas de conservação ou cujos responsáveis ainda não cumprem integralmente as exigências previstas pela Política Nacional de Segurança de Barragens.
Espalhadas por 19 estados e o Distrito Federal, essas barragens podem representar riscos à população e a infraestruturas essenciais, como rodovias, pontes e sistemas de abastecimento.
Mineração concentra maior número de barragens críticas
O levantamento, divulgado também pela Agência Brasil, mostra que a mineração continua sendo a atividade com maior número de estruturas classificadas como prioritárias para fiscalização.
Ao todo, são 55 barragens de mineração, correspondendo a 26% das estruturas consideradas críticas pela ANA. Em seguida aparecem barragens destinadas ao abastecimento público de água (51), irrigação (29), regularização de vazão (20), paisagismo (17), dessedentação de animais (16) e outras finalidades (25).
Embora a classificação não signifique risco iminente de rompimento, ela indica que essas barragens necessitam de acompanhamento permanente e correção de pendências relacionadas à segurança.
Quase metade das barragens ainda não foi totalmente classificada
Outro dado que chama a atenção é o volume de informações ainda incompletas sobre as barragens brasileiras.
O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB) reúne atualmente 29.761 estruturas cadastradas. Entretanto, 14.355 delas — cerca de 48% — permanecem com situação indefinida, porque os órgãos responsáveis ainda não informaram todos os dados necessários para classificá-las conforme determina a legislação.
Entre as barragens já enquadradas na Política Nacional de Segurança de Barragens, aproximadamente 8.797 atendem aos requisitos de segurança, enquanto 6.609 possuem dano potencial associado médio ou alto ou apresentam categoria elevada de risco operacional.
Acidentes continuam acontecendo
Mesmo após as mudanças promovidas nos últimos anos, acidentes envolvendo barragens continuam sendo registrados no Brasil.
Durante 2025, ocorreram 18 acidentes e 23 incidentes, segundo o relatório da ANA. Nenhum deles provocou mortes, mas houve evacuações preventivas, além de danos em estradas, pontes e outras estruturas públicas.
Nos acidentes ocorre o rompimento ou colapso da estrutura. Já os incidentes representam falhas que aumentam o risco de um rompimento caso não sejam corrigidas.
Fiscalização enfrenta déficit de profissionais
O relatório também revela uma preocupação adicional: a redução das equipes responsáveis pela fiscalização.
Pela primeira vez desde a tragédia de Brumadinho, diminuiu o número de servidores dedicados à segurança de barragens. Atualmente, os 33 órgãos fiscalizadores contam com 333 profissionais, sendo apenas 161 exclusivos para essa atividade.
Segundo a ANA, seriam necessários pelo menos 221 profissionais adicionais para que as equipes alcançassem o tamanho considerado adequado para uma fiscalização eficiente.
Apesar da limitação de pessoal, as inspeções aumentaram em relação ao ano anterior, demonstrando o esforço técnico das equipes responsáveis pelo monitoramento dessas estruturas.
As lições de Mariana e Brumadinho ainda ecoam
As tragédias de Mariana e Brumadinho mudaram definitivamente o debate sobre segurança de barragens no Brasil. Além das centenas de vidas perdidas, milhares de pessoas ficaram sem moradia, perderam suas fontes de renda e convivem até hoje com os impactos ambientais provocados pela contaminação dos rios Doce e Paraopeba.
O novo relatório da ANA demonstra que houve avanços importantes na legislação, no cadastramento das estruturas e nas ações de fiscalização. No entanto, também evidencia que ainda existem desafios relevantes para garantir o monitoramento adequado de milhares de barragens espalhadas pelo país.
Enquanto centenas de estruturas permanecerem classificadas como prioritárias e quase metade das barragens brasileiras ainda não possuir informações completas sobre seu nível de risco, a lembrança de Mariana e Brumadinho continuará servindo como um alerta permanente de que prevenção, fiscalização e transparência precisam estar acima de qualquer interesse econômico.
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