segunda-feira, 4 de maio de 2026

SMC: CARTA ABERTA DE AGRADECIMENTO

A força da solidariedade que move a história

Direito de greve cerceado e o líder sindical Nelsão da Força sendo preso defronte à Brose, no Paraná em fevereiro de 2026
Direito de greve cerceado e o líder sindical Nelsão da Força sendo preso defronte à Brose, no Paraná

O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba vem a público expressar seu mais profundo e sincero agradecimento a todas as pessoas, organizações e entidades sindicais que estiveram ao nosso lado em um dos momentos mais desafiadores e também mais emblemáticos, da nossa trajetória recente: a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Brose.

Começamos por quem sustenta o mundo com as próprias mão e, ainda assim, encontra força para erguer também a própria dignidade: os trabalhadores e trabalhadoras da Brose. Foram dias duros, de sol, chuva, de tensão, de incertezas e enfrentamentos. Mas também foram dias de coragem coletiva. Cada assembleia foi um ato de fé. Cada dia de greve, um gesto de consciência. Vocês provaram, mais uma vez, que quando a classe trabalhadora se reconhece como sujeito da sua própria história, não há força capaz de dobrá-la.

Essa não foi apenas uma greve. Foi a continuidade de uma longa travessia.

Há 106 anos, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba escreve sua história no aço quente da luta. Uma história marcada por conquistas que não vieram como concessão, mas como fruto de organização, enfrentamento e solidariedade. Foi assim na luta por melhores condições de saúde e segurança no trabalho, quando se enfrentaram máquinas sem proteção, jornadas exaustivas e o silêncio imposto sobre o adoecimento. Foi assim na construção e no fortalecimento das CIPAs, instrumento fundamental de defesa da vida dentro das fábricas.

Foi assim também na luta pela Participação nos Lucros e Resultados (PLR), afirmando que quem produz a riqueza tem direito de participar dela. Foi assim no enfrentamento cotidiano ao preconceito, ao racismo, à discriminação de gênero, à exclusão de pessoas com deficiência e à LGBTfobia, porque não existe trabalho digno onde há humilhação. A defesa da diversidade não é um adorno: é parte essencial de um projeto de justiça.

Essa história não se construiu em silêncio. Ela se construiu com greves, mobilizações, negociações duras e, muitas vezes, sob pressão. E a greve da Brose se inscreve nessa linha do tempo como mais um capítulo de resistência e afirmação.

Agradecemos à diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, que esteve presente, firme e organizada em cada passo dessa caminhada, conduzindo com responsabilidade, coragem e compromisso. Em especial ao nosso presidente Sérgio Butka, cuja liderança foi decisiva nos momentos mais críticos.

Trabalhadores em greve na porta da Brose na Região Metropolitana de Curitiba, em fevereiro (2026)

Aos companheiros e companheiras das oito centrais sindicais, em especial à Força Sindical, à Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos e à Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, nosso reconhecimento pela unidade construída, porque quando o movimento sindical se une, a luta ganha escala, voz e força.

Nosso reconhecimento também às lideranças políticas que compreenderam a dimensão desse conflito: ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que além da solidariedade manifestada, encaminhou pedido de investigação pelo desvio de função e violência policial da PM do Paraná na greve, a Luiz Felipe Vieira de Mello Filho, presidente do TST, à ministra e deputada federal Gleisi Hoffmann e ao ministro do Trabalho Luiz Marinho; ao deputado federal Tadeu Veneri; aos deputados estaduais Luiz Cláudio Romanelli, Arilson Chiorato, Professor Lemos, Luciana Rafagnin e renato Freitas. Aos vereadores de Curitiba Angelo Vanhoni, Georgia Prates, Wanda de Assis e Camilla Gonda; ao vereador Grilo, de São José dos Pinhais; aos procuradores do Ministério Público do Trabalho, Dr. Alberto Emiliano, Rúbia Canavarro e Gláucio Oliveira. A Regina Cruz e Luis Fernando Busnardo, da Superintendência da Delegacia do Trabalho do Paraná; e às dezenas de organizações de direitos humanos que se somaram a essa luta.

Trabalhadores da Brose fazem protesto em frente ao MTE em Curitiba

Estendemos nosso agradecimento ao Ministério Público do Trabalho, cuja atuação firme resultou na aplicação de uma multa histórica à empresa por práticas antissindicais. Essa decisão não é apenas jurídica, ela é pedagógica. Ela reafirma que a liberdade sindical não é favor: é direito.

Não podemos deixar de registrar, com a gravidade que o momento exige, a violência policial ocorrida durante a greve. A tentativa de interferência da Polícia Militar em um movimento legítimo de trabalhadores levanta um alerta profundo sobre o papel das instituições. Quando há desvio de função para constranger o exercício de um direito constitucional, não se atinge apenas um sindicato, atinge-se a própria democracia.

Mas a história mostrou, mais uma vez, que a repressão não é páreo para a consciência organizada.

A greve da Brose não foi apenas um conflito. Foi um espelho. Um espelho que revelou as tensões do nosso tempo, mas também a potência da solidariedade.

A todas as organizações sociais, especialmente aquelas comprometidas com os direitos humanos, nossa gratidão. Vocês ajudaram a transformar resistência em voz coletiva, e voz coletiva em conquista.

Essa vitória não pertence a um sindicato. Ela pertence a uma classe.

Uma classe que aprende, a cada geração, que nenhum direito nasce do acaso. Que toda conquista é filha da luta. E que toda luta, quando é justa, encontra caminhos.

Se hoje celebramos, é porque caminhamos juntos.

E se avançamos, é porque, mesmo diante do medo, escolhemos não recuar.

Seguiremos, porque ainda há muito a conquistar.

Seguiremos, porque a dignidade não se negocia.

Seguiremos, porque a história, quando escrita pelo povo, não termina: ela floresce.

Nelson Souza, vice-presidente
Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC)
Curitiba, Paraná

Divulgação

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