quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Virada de ano sem água: colapso no abastecimento expõe velhos problemas no litoral do Paraná

Com mais de um milhão de pessoas no litoral, Guaratuba, Matinhos e Pontal enfrentam torneiras secas, comércio pressionado e revolta popular; crise ocorre em meio a denúncias graves envolvendo a Sanepar e o governo Ratinho Junior

Trabalhadores executam reparo na adutora rompida - Sanepar

A cena se repete, década após década, como uma ferida aberta na memória coletiva do litoral paranaense. Em plena virada do ano, quando Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná recebem mais de um milhão de pessoas entre moradores, turistas e trabalhadores temporários, a água simplesmente deixa de chegar às torneiras. O verão começa, mas a dignidade básica falha.

Moradores do Balneário Nereidas, Piçarras, Gaivotas e outras regiões relatam que a água até às vezes “dá sinal”, chega fraca pela rede, cheia de ar, sem pressão suficiente para subir até as caixas d’água. Em muitos casos, não passa disso. O resultado é uma rotina de improviso, baldes, economia forçada e indignação.

Em Guaratuba turistas e moradores voltaram a recorrer à Fonte da Santa, próxima à praça central. Uma veranista nos resumiu o sentimento coletivo de quem foi passar o ano novo na praia: enquanto famílias ficam dias sem água para cozinhar, tomar banho ou limpar a casa, há imóveis com piscinas sendo abastecidas normalmente. “Em situação de emergência, isso deveria ser proibido”, desabafa.

O impacto vai além das residências. Comerciantes relatam dificuldades para manter portas abertas, hotéis e pousadas enfrentam reclamações de hóspedes, e o comércio local já sente os efeitos da escassez. Em mercados, a água mineral começa a desaparecer das prateleiras, com novos pedidos previstos apenas após o feriado do dia 1º.

Retomada anunciada, mas lenta e desigual

A Sanepar informou que o abastecimento começou a ser retomado por volta das 13h desta terça-feira (30), após avanços no conserto da adutora que liga a estação de tratamento aos reservatórios de Guaratuba. Segundo a companhia, equipes trabalharam de forma ininterrupta desde a noite anterior, atravessando a madrugada.

A normalização, porém, ocorre de forma gradativa. Regiões centrais começaram a apresentar melhora, mas bairros mais altos ou distantes seguem enfrentando baixa pressão. A previsão oficial é de restabelecimento total apenas na madrugada desta quarta-feira (31).

Como medida paliativa, a Sanepar afirma utilizar 21 reservatórios modulares distribuídos entre Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná, que ampliariam em cerca de 1 milhão de litros a capacidade de armazenamento. Além disso, 24 caminhões-pipa estariam sendo usados para atender pontos críticos e imóveis considerados essenciais.

Na prática, porém, moradores afirmam que essas soluções não têm sido suficientes diante do volume extraordinário de pessoas e do consumo elevado, típico do réveillon quando gente do Paraná inteiro ruma em direção à costa leste do Estado.

Um problema antigo, conhecido — e previsível

O que mais revolta moradores antigos é a sensação de déjà-vu. Situações semelhantes já eram vividas no final dos anos 1980 e 1990, quando o crescimento do turismo não foi acompanhado por investimentos estruturais compatíveis. Décadas depois, mesmo com tecnologia, dados e previsões cada vez mais precisas sobre a população flutuante, o colapso volta a se repetir.

Hoje, o próprio poder público reconhece que mais de um milhão de pessoas descem ao litoral paranaense no período do Ano-Novo. Ainda assim, a infraestrutura segue operando no limite — e qualquer falha se transforma rapidamente em crise sanitária.

Crise técnica, pressão política e denúncias graves

O colapso no abastecimento ocorre em um momento particularmente sensível para a Companhia de Saneamento do Paraná. A Sanepar está no centro de denúncias que ganharam repercussão política nas últimas semanas, envolvendo supostos esquemas de arrecadação irregular ligados à campanha eleitoral de 2022 do governador Ratinho Junior (PSD).

Áudios divulgados pela imprensa atribuem a ex-gestores da companhia e a figuras ligadas à Secretaria das Cidades pedidos de contribuições internas que teriam como objetivo cobrir dívidas de campanha. Os valores citados giram em torno de R$ 4 milhões, próximos ao déficit oficialmente declarado nas contas eleitorais, que apontam um rombo superior a R$ 3,4 milhões.

Segundo as gravações, servidores comissionados teriam sido pressionados a repassar parte do PPR (Plano de Participação nos Resultados). Em um dos trechos mais comentados, um suposto gestor afirma que “meu chefe não é o governador”, apontando o então secretário Guto Silva como figura central nas decisões.

O governo do Paraná e a Sanepar classificam as denúncias como “pauta requentada” e dizem que os áudios estão fora de contexto. Ainda assim, a oposição na Assembleia Legislativa reagiu. Deputados como Requião Filho (PDT) e Arilson Chiorato (PT), protocolaram representações no Ministério Público, Polícia Federal, TSE e CVM, cobrando investigação ampla e transparente.

A crise já respinga no cenário eleitoral de 2026. Requião Filho, pré-candidato ao governo e bem cotado — segundo as pesquisas de opinião —para vencer as eleições, tem cobrado publicamente posicionamento dos principais nomes ligados ao Palácio Iguaçu. Em postagem nas redes sociais, criticou o silêncio de pré-candidatos do PSD e citou diretamente o senador Sergio Moro (União Brasil), afirmando que o ex-juiz permanece “mudo” diante das denúncias que atingem uma das estatais mais estratégicas do Paraná.

Entre a festa e a falta d’água

Enquanto discursos oficiais falam em retomada, planejamento e normalização, a realidade cotidiana segue marcada por torneiras secas, baldes improvisados e indignação. Para muitos moradores e veranistas, a crise não é apenas técnica — é política, estrutural e simbólica.

A virada do ano no litoral do Paraná acontece, mais uma vez, sob o contraste entre praias cheias, fogos no céu e a ausência de um direito básico dentro de casa. Um retrato duro de como problemas antigos continuam cobrando seu preço, justamente quando o estado mais se orgulha de receber visitantes.

A voz de quem está atravessando o problema

O Sulpost conversou com o seu Antônio, morador da região da Baia de Guaratuba, ele, assim como muitas pessoas, está indignado com a situação: "Bom, ficou três dias sem água durante alguns bairros, ainda uns bairros, segundo a Sanepar, por causa de um problema numa adutora, que é uma desculpa recorrente, na verdade. É todo ano, é sempre uma adutora que estoura...", relata o morador.

Ele também informou que a tendência é mesmo a de normalização do abastecimento nas próximas horas, nas que todo ano é a mesma coisa: "Então, a partir da madrugada, as coisas começaram a ficar mais ou menos em ordem, mas, por exemplo, até a hora do almoço hoje, o prédio da minha sogra chegava água embaixo, mas ainda sem pressão para subir para a caixa d'água... No final das contas, isso é um problema que acontece todos os anos, e é o fim da picada que eles não se preparem."

Certo de que ano novo sem água na torneira é cilada. O Sulpost, blog plural, apartidário, defensor da democracia e que se soma às vozes da população paranaense, mantém o espaço aberto para manifestações de leitores, do Governo do Estado do Paraná ou da Sanepar. 

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